segunda-feira, 23 de junho de 2008

O Conto revisado

As Férias na Ilha

Chegou em casa tarde e notou o telegrama no meio da correspondência.
Ficou apreensivo. Seu temor se confirmou: tia Julia havia morrido.
No dia seguinte seguiu para o enterro na Ilha.

Foi uma estranha sensação rever o casarão azul onde passara parte da infância e adolescência. Depois de formado, foram poucas as visitas àquele lugar.
Agora estava lá, sozinho, diante do velho casarão de janelas brancas e muito altas, com o mesmo portão de ferro lateral que ainda rangia ao ser aberto.

A casa estava silenciosa, o quarto da tia ainda tinha a antiga cama de madeira, coberta por uma colcha de rendas, as gravuras na parede e a luz de leitura na mesinha de cabeceira. Tudo lhe era tão familiar. A sala bem iluminada com suas grandes janelas brancas dava para a praça da cidade. A mesma cozinha de azulejo antigo, a mesa de tampo de mármore onde tomava seu lanche, o fogão de ferro e as janelas com vista para o quintal onde estavam suas árvores, companheiras de infância.

A mangueira parecia agora menor do que tinha na memória, passou a mão no tronco rugoso, pisou na raiz que o ajudava a subir na árvore. Agora parecia tão fácil.
Voltou para o interior da casa e foi na grande estante de livros no canto da sala, o lugar preferido da tia.

Sentiu o coração apertado. Sentou em sua poltrona favorita, fechou os olhos e deixou as lembranças voltarem.

A tia era a irmã mais velha da mãe, viúva de um diplomata, muito culta, falava diversos idiomas, e havia morado em diferentes países. Instalou-se na ilha depois de perder o marido. Vivia muito arrumada, de olhos pintados, unhas feitas e cabelo impecável. Fumava um cigarro atrás do outro e andava descalça.

O início da convivência não foi fácil. A mãe recém separada, deixou o menino sozinho com a tia enquanto resolvia os detalhes da separação. O menino se sentia sozinho e triste com aquela “velha esquisita” que vivia lendo, escrevendo, fumando e que detestava barulho. Ele, aos oito anos, era muito tímido e solitário. Passava a maior parte do dia zanzando pelo quintal, subindo na mangueira ou enfiado na cozinha na companhia de Ercília, a cozinheira, que fazia doces e comidas baianas deliciosos e tinha uma risada alta e gostosa.

A tia, sem nenhuma experiência com criança, não sabia como se aproximar do menino. Aliás, ela, também muito tímida, preferia conviver com os livros do que com as pessoas. Pior ainda ter que se relacionar com aquele menino pequeno e barulhento.

Uma vez a cada 15 dias a tia recebia um telegrama avisando sobre a chegada de sua encomenda. Então, punha seu grande chapéu, e ia até a agência de correios da ilha. Um dia chamou o menino para acompanhá-la, “assim você carrega a caixa pra mim”, se justificou. O menino, surpreso, calçou os chinelos e foi atrás dela. A tia tinha um passo rápido e não lhe dava a mão como fazia a mãe. Mas percebeu que de tempos em tempos ela olhava para trás para se certificar de que o menino ainda estava por perto.

O moço do correio foi buscar a caixa de papelão cheia de selos e com nome escrito da tia escrito em preto. Ela assinou um papel e deu a caixa para o menino carregar. A volta para casa foi dura, com a caixa pesada que o menino tentava ajeitar nos braços para não deixar cair. A tia abriu o portão e pediu para o menino colocar a caixa em cima da mesa de jantar. Tirou o primeiro livro, alisou a capa, abriu a primeira página e pela primeira vez ele a viu abrir um grande sorriso: “esperava há muito tempo por este aqui”. “Que velha esquisita”, pensou. A tia foi então, tirando os outros livros e repetindo o ritual. Por último tirou um livro azul de capa dura e disse: “Este aqui é para você, Pedro”. Foi a primeira vez que ela o chamava pelo nome.
Foi também a primeira vez que Pedro ganhara um livro.

Não sabia o que fazer com ele e a tia percebeu seu estranhamento. Puxou o menino para perto, mandou que sentasse e então começou a ler. O livro era uma estória sobre um menino que se perdia na Índia, uma aventura cheia de perigos e emoções.

Tia Julia se saíra uma ótima contadora de estórias, fazendo vozes, barulhos e caretas. Nem parecia aquela senhora tímida e carrancuda. O tempo voou e Ercília os chamou para o jantar. Comeram os três na mesa da cozinha e a tia começou a contar sobre a época que havia morado na Índia. “Foram três anos, um país interessantíssimo, cheios de cores e aromas diferentes. Fizemos bons amigos por lá. Seu tio jogava críquete, um esporte inglês, que os indianos adoram. Foi uma época muito feliz”. Depois do jantar foi buscar umas fotografias antigas e mostrou para Pedro e Ercília. Contou mais algumas casos, e foram se deitar. Pedro levou o livro e continuou a ler noite adentro até que adormeceu.

No dia seguinte contou para a tia sobre as cidades onde o personagem havia passado. A tia procurou num Atlas o mapa da Índia e procuraram juntos pelos nomes das cidades. A Índia havia entrado no casarão azul. Pedro contava as aventuras do menino perdido, a tia suas memórias e acabaram todos envolvidos pelo assunto. Até Ercília se inspirou para fazer um frango ao curry com geléia de mangas colhidas no jardim. O livro foi chegando ao fim e Pedro lia bem devagarzinho as últimas páginas. Até que o livro terminou.

Mas havia outra encomenda, e desta vez era Pedro quem estava mais ansioso por abrir a caixa. O livro agora era mais grosso, de um grande escritor baiano, segundo a tia. Contava a estória de um bando de meninos que morava em Salvador e brigava por um terreno baldio onde jogavam futebol. Desta vez foi Ercília que foi lembrando de sua infância nos bairros contados no livro.“Foi lá que nasci, também brincava nesta rua, será que esta estória é verdadeira? Está me lembrando uns meninos que conheci”.

A tia, então, propôs uma excursão para Salvador. Foram visitar o bairro em que o famoso escritor morava. Compraram numa lojinha as gravuras que até hoje estavam nas paredes do quarto da tia. Comeram acarajé, tapioca e passaram um dia muito divertido. Agora eram três a ficarem ansiosos pela chegada da caixa de livros.

Mas o tempo passou e Pedro teve que voltar para a cidade. Nas férias seguintes voltou para a Ilha e viveu novas aventuras ao lado de Ercília e tia Julia. Foi assim que aprendeu o gosto pela leitura.

O tempo passou, Pedro se formou jornalista e virou correspondente internacional.
A cada visita ao Brasil vinha visitar a tia e se correspondiam regularmente. Tia Júlia foi visitá-lo em Buenos Aires quando nasceu seu primeiro filho. Voltou para a Ilha com a família durante alguns anos e a cumplicidade com tia Júlia e Ercília sempre o acompanhou.

Mas hoje estavam lá, sem tia Júlia, no casarão. Ercília o chamou para um café e o apresentou para seu neto que se chamava Thiago. O menino de olhos de jabuticaba, franzino e muito tímido ficou observando Pedro com um jeito que lhe era familiar. Comeram um bolo de fubá na mesa da cozinha e Pedro convidou o menino a dar um passeio pelo jardim. Sentaram à sombra da mangueira e Pedro abriu o livro azul que havia achado na estante da casa. Então começou a contar a contar, “Thiago, esta é a estória de um menino que se perde na Índia, um país cheio de cores e aromas muito distante daqui...”.


.

Nenhum comentário: